Por Rafaela Torres e Júlia Eymard

Da origem até a profissionalização

O futebol no Brasil começou oficialmente em 1894, com a chegada de Charles Miller ao país (antes disso, no entanto, já existiam relatos da década de 1860 de “peladas” em solo brasileiro, sobretudo nos portos por marinheiros estrangeiros). Há também um registro histórico de que o esporte já era praticado no país, em Juiz de Fora (MG), no campo do Instituto Metodista Granbery, em 1893.

Miller desembarcou no Porto de Santos em outubro daquele ano, trazendo duas bolas, uma bomba de ar para enchê-las, um apito, um livro de regras do esporte e uniformes. A primeira partida com as regras trazidas por Charles aconteceu seis meses depois, no dia 14 de abril de 1895, em São Paulo, entre a companhia ferroviária São Paulo Railway (time de Miller) e a Companhia de Gás de São Paulo, com vitória da Railway, por 4 a 2.

Etnia e profissionalismo: os primeiros conflitos do futebol brasileiro

Na época em que o futebol foi introduzido no Brasil, o regime republicano havia sido instaurado há cinco anos, em 1889, e a escravidão abolida há seis anos, em 1888. Além disso, o país vivia o auge da produção e exportação do café e contava com um plano ambicioso de modernização, buscando se enquadrar aos moldes europeus, principalmente no que se refere à arquitetura, cultura e sociedade, vide a grande influência da “Belle Époque”. Com isso, a imigração europeia passou a ser incentivada, visando a substituição da mão de obra escravizada nas lavouras, e grandes espaços públicos passaram a ser abertos em locais onde antes existiam cortiços, ruas estreitas e becos mal iluminados.

Esses fatores influenciaram diretamente a disseminação do futebol no Brasil, inicialmente nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Sendo utilizado como forma de entretenimento, em seus primeiros anos, o esporte ficou restrito à elite, inclusive pelos altos custos da prática, já que os materiais eram importados. No entanto, com o avanço da industrialização e o crescimento da classe operária, não demorou para que o futebol se espalhasse entre as camadas menos favorecidas da sociedade.

Assim, nas três primeiras décadas do século XX, duas disputas passaram a marcar o cenário futebolístico: a elitização versus a popularização e o amadorismo versus a profissionalização.

Outra luta que permeou o futebol brasileiro no início do século XX foi em relação a etnia. Inicialmente, por se tratar de um esporte de elite, não era permitido que negros integrassem as equipes. Nas duas primeiras décadas da história do futebol no Brasil, jogadores negros sequer podiam esbarrar em adversários brancos, muito menos empurrá-los ou derrubá-los, sob pena de sofrerem punições severas, como agressões por parte de policiais e outros jogadores.

Esse cenário levou muitos atletas negros a se adaptarem dentro de campo, recorrendo à ginga e à habilidade técnica em vez do contato físico. Apesar disso, o futebol representava uma possibilidade de ganho financeiro, já que, após a abolição da escravidão e com a intensificação da imigração europeia, as oportunidades de trabalho eram reduzidas.

Um dos nomes que ajudaram a mudar a perspectiva dos negros no futebol foi Arthur Friedenreich, filho de pai alemão e mãe negra. Descrito por Mário Filho, famoso cronista da época, como um “mulato de olhos verdes”, Arthur foi considerado o primeiro herói do futebol nacional, marcando o gol do título do primeiro campeonato internacional da seleção: o Campeonato Sul-Americano, em 1919.

A vitória do profissionalismo

Por fim, a profissionalização do futebol no Brasil ocorreu em 1933, com a fundação da Liga Carioca de Football (LFC) e da Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA), que adotaram o caráter formal do esporte. Ainda assim, os conflitos em torno do amadorismo contra o profissionalismo só tiveram fim em 1937, quando a Confederação Brasileira de Desportos (CDB), fundada no dia 8 junho de 1914, reconheceu oficialmente a profissionalização do futebol – mesmo que anteriormente a instituição apoiasse o amadorismo no esporte.

Charles Miller e Oscar Cox: os pioneiros do futebol brasileiro


No final do século XIX, como conta história oficial, o futebol desembarcava no Brasil ainda como uma novidade estrangeira, trazida na bagagem de jovens que haviam estudado na Europa. Em São Paulo, Charles Miller apresentava o esporte com suas regras e bolas, enquanto, no Rio de Janeiro, Oscar Cox ajudava a espalhar aquela prática que logo despertaria curiosidade e entusiasmo.

Restrito, a princípio, aos círculos da elite, o futebol começou tímido, quase como um passatempo importado. Mas, pouco a pouco, atravessou muros sociais, ganhou as ruas e os campos improvisados, até se transformar em uma das maiores paixões do país e em um elemento central da cultura brasileira.

Charles Miller: o pai do futebol brasileiro

Charles William Miller nasceu no estado de São Paulo, em 24 de novembro de 1874. Filho de um escocês e de uma brasileira com ascendência inglesa, viveu os primeiros anos de sua infância no Brasil. Aos 10 anos, foi enviado à Inglaterra para estudar e foi lá, em Southampton, cidade ao sul das Ilhas Britânicas, que descobriu o futebol e se apaixonou pelo esporte.

Após concluir os estudos, regressou ao Brasil em 1894 para assumir uma vaga na São Paulo Railway, ao lado de seu pai, tornando-se também correspondente da Coroa Britânica no país. Em sua bagagem, além da paixão pelo esporte, trouxe um par de chuteiras gastas, uniformes usados, duas bolas, uma bomba de ar e um livro com as regras do futebol. No mesmo ano, passou a ensinar aos colegas tudo o que sabia sobre o esporte e outras modalidades com as quais teve contato no exterior.

Na volta ao Brasil, ele ainda fundou a Associação Paulista de Tênis em Sorocaba, em 1895, mas sua principal contribuição ainda estava por vir.

Em 14 de abril de 1895, em Várzea do Carmo, no Brás, em São Paulo, Charles Miller organizou o primeiro jogo de futebol amador realizado no país. Seu time, formado por trabalhadores da empresa, enfrentou a Companhia de Gás de São Paulo, em uma partida que terminou em 4 a 2. A partir desse momento, o esporte começou a se popularizar, inicialmente nos clubes que surgiam gradualmente entres as elites brasileiras, depois, entre o público em geral, que futuramente passaria a enxergar no futebol uma forma de união e convivência social.

Com o passar dos anos, Charles percebeu o crescimento do interesse popular e a necessidade de organizar a prática esportiva. Assim, surgiu a Liga Paulista de Futebol e, em 1901, o Paulistão, considerado o primeiro campeonato de futebol do Brasil.

Para garantir sua participação como atleta nas competições, Charles Miller foi fundamental na criação do departamento de futebol do São Paulo Athletic Club (SPAC, não se tratando do atual São Paulo Futebol Clube, fundado décadas depois). O SPAC era um clube inicialmente de caráter social, frequentado principalmente por funcionários do São Paulo Railway e membros da elite paulistana. A partir da influência de Miller, o espaço passou por transformações e se consolidou também como uma entidade esportiva, abrindo caminho para a organização das primeiras práticas do futebol no país.

Com excelente campanha, o SPAC conquistou o título, tendo Charles Miller como artilheiro. O campeonato caiu no gosto popular, e o clube se consolidou como uma potência, vencendo também as edições de 1903 e 1904.

Charles seguiu atuando no futebol até 1911, quando conquistou seu quarto título estadual. Após se aposentar como jogador, tornou-se árbitro e dirigente, contribuindo para a profissionalização e popularização do esporte.

Oscar Cox:o nome por trás do futebol nas Laranjeiras

Outro nome fundamental para o desenvolvimento do futebol brasileiro é Oscar Alfredo Sebastião Cox. Carioca, nascido em 20 de janeiro de 1880, dia de São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, era filho de uma brasileira e de um inglês. Assim como muitos jovens da elite da época, foi enviado à Europa para completar sua formação educacional.

Estudou no colégio La Ville, em Lausanne, na Suíça, onde teve contato mais profundo com o futebol, aprendendo suas regras e práticas. Além do conhecimento adquirido, trouxe ao Brasil, em 1887, uma bola de couro, um livro de regras e ideias que contribuiriam para o desenvolvimento do esporte. Ao retornar ao Brasil, passou alguns anos tentando formar uma equipe no Rio de Janeiro. No entanto, o futebol ainda era pouco conhecido na cidade, onde o remo era a modalidade mais popular.

Em 1901, após uma viagem à Inglaterra, voltou ainda mais envolvido com o futebol e trouxe novos materiais e conhecimentos sobre o jogo, incluindo a marcação das linhas da grande área, novidade à época. Nesse mesmo ano, organizou a primeira partida oficial de futebol no Rio de Janeiro.

Seu pai, George Cox, foi um dos fundadores do Rio Cricket and Athletic Association, clube da colônia inglesa em Niterói, e também seu segundo presidente. Foi nesse local que foi realizada uma partida histórica, em 1º de agosto de 1901. Para realizá-la, Oscar atravessou a Baía de Guanabara acompanhado de nove futuros jogadores do Fluminense Football Club e um atleta do Paysandu Athletic Club, para enfrentar praticantes de críquete e tênis do clube presidido pelo seu pai. O jogo terminou empatado em 1 a 1.

No ano seguinte, em 1902, Oscar Cox deu um passo decisivo para a consolidação do futebol no Rio de Janeiro ao participar da fundação do Fluminense Football Club. O clube foi criado com o objetivo de organizar a prática do futebol na cidade, reunindo jovens interessados e estabelecendo regras, treinos e competições. Cox não apenas ajudou a fundar o clube, como também atuou como jogador e um dos principais incentivadores da equipe em seus primeiros anos.

Além disso, teve papel fundamental na difusão do futebol no Rio de Janeiro, incentivando a criação de novos clubes e a realização de partidas entre diferentes equipes, contribuindo para a estruturação do futebol carioca. Seu esforço foi essencial para que o esporte deixasse de ser restrito a poucos e passasse a ganhar espaço entre diferentes grupos sociais.

Assim como Charles Miller, Cox desempenhou um papel decisivo na consolidação do esporte no Rio de Janeiro, ajudando a construir as bases para sua popularização em todo o Brasil.

Fontes:
MAGALHÃES, Livia Gonçalves. Histórias do Futebol. São Paulo: Arquivo Público do Estado, 2010.
OLIVEIRA, Alex Fernandes de. “Origem do futebol na Inglaterra e no Brasil”. Revista Brasileira de Futsal e Futebol. São Paulo, v.4, n.13, p.170-174.Set/Out/Nov/Dez. 2012