De pai pra filho
Aos três anos, ganhei minha primeira bola. Era de EVA colorido, daquelas feitas para criança não se machucar. Só que, pra aprontar, criança sempre arruma um jeito. Sem um zagueiro para me marcar — minha irmã preferia a Barbie —, me vi marcado pelas bagunças que eu mesmo fazia no quarto. Não demorou muito para o departamento médico ser acionado: caí sobre a quina do rodapé e emendei meus primeiros pontos na cabeça. Lógico, não seriam os últimos.
Desde então, meu pai não apoiou a ideia de que eu jogasse futebol. Nunca entendi bem o porquê. Nisso, não tive como obedecer. Ainda mais que foi ele quem me ensinou a amar o esporte — e, às vezes, a gente ensina justamente aquilo que teme passar adiante.
Minha primeira memória clara é aos quatro anos. Oitavas de final da Libertadores: Flamengo e América, jogo de volta no Maracanã. Meu pai é rubro-negro, então eu também seria. Não que tivesse escolha, mas hoje não trocaria por nada. O problema é que essa primeira lembrança virou pesadelo por culpa de um Cabañas, do América do México, inspirado, pedindo música no Fantástico e dando tchau para o Flamengo na competição continental. Não entendia direito o que estava acontecendo. Só sabia que meu pai estava triste. E não queria ver ele triste. Decidi ali, com a lógica utópica de uma criança, que o Flamengo precisava vencer para ele ficar bem. Simples assim.
Um ano depois, “o gol do zagueiro Angelim no escanteio que o Pet cobrou” nos deu o hexacampeonato do Brasileirão. Em nossa comemoração, nos abraçamos e aprendi que também dava para chorar de alegria. Mas o futebol tem um talento especial para te partir. Não muito tempo depois, a cavadinha do botafoguense Loco Abreu no Carioca me deixou destruído. Ali, já queria desistir de ser flamenguista. Meu pai me segurou — não literalmente, mas quase. Disse que fazia parte. Que era do jogo. Naquele momento, sem perceber, ele começou a construir algo em mim que iria se traduzir na vida.
Nossa relação sempre teve um gelo difícil de explicar, mas o futebol quebrava com uma facilidade que nenhuma conversa conseguia. Ele trabalhava a semana inteira como segurança de banco e ainda pegava o táxi nos fins de semana. Reservava o domingo para o jogo. Quando a partida só passava em canal fechado — e a gente não tinha —, ia trabalhar e eu ficava com o rádio. Foi assim que conheci os narradores Penido e Garotinho. Decorava tudo para contar para ele quando chegasse, sempre tarde. Tentava não dormir. Nem sempre conseguia. Mas, quando dava, narrava o jogo inteiro antes que ele fosse dormir. O resultado quase nunca era bom. Mas o bom mesmo era passar tempo com ele.
Também tentei jogar, realizar o sonho de “muleque”. Quando mais novo, era bom. Bom mesmo. Meu pai não gostava da ideia, mas as pessoas ao redor diziam para ele investir, que eu teria futuro. Aos onze anos, fiz um teste no Cruzeiro. Ele me levou e foi a primeira vez que me viu jogar. Fui bem no primeiro dia, fiz gol e tudo mais. No segundo, perdemos o horário por causa do trânsito. Balde de água fria. Dali em diante, o medo de errar tomou o lugar do prazer de jogar, e não conseguia mais entrar em campo sendo feliz. Levei anos para aceitar que o futuro não veio do jeito que esperava. Mas, por incrível que pareça, isso só me aproximou mais do futebol.
A partir daí, fui tomando gosto pelo esporte de um jeito diferente. Comecei a entender, a criar referências, a discutir no Facebook quem era melhor: Messi ou Cristiano. Preferia o gajo; hoje reconheço que ninguém fez mais pelo futebol do que o argentino. Até perdi a época de Zico e Pelé, mas não me sinto menos privilegiado. Como diz meu pai: faz parte do jogo.
O futebol, para mim, se tornou tudo. É uma válvula de escape, a minha terapia. É o idioma que eu e meu pai encontramos para dizer coisas que de outro jeito nunca diríamos. Através do esporte, ele me deu o mapa para a vida, sem saber o que estava fazendo. E nossa relação é construída como quem ama o seu time do coração: o amor não precisa de recompensa para ser real. Às vezes a cavadinha de um gringo — e já vi algumas — te toma um campeonato, e, mesmo assim, você volta no domingo para assistir ao seu clube de novo, sem a certeza de que vai ganhar. Mas é isso que te faz sentir vivo.
Meu pai sabia disso antes de mim. E, sem nunca me sentar para dar uma lição, foi me ensinando, jogo a jogo, que o futebol (a vida) não é sobre vencer. É sobre continuar.
E nessa de continuar, sigo à espera de ver o hexa do Brasil. Um amor que começou em 2010, com a Copa na África do Sul. A primeira partida que lembro de acompanhar foi Brasil e Costa do Marfim, com aquele baita gol do “Fabuloso” Luís Fabiano. Motivado por uma tabela de jogos que meu pai me deu para preencher os resultados, passei a acompanhar a maioria desde então.
Foi numa tarde de quinta-feira que a Copa se tornou algo gigantesco para mim. Eslováquia e Itália, última rodada do grupo F, às onze da manhã, com o prato na mão. A Itália era campeã do mundo, a Eslováquia não tinha grandes nomes — mas passou a contar com o meu apoio. Durante aquele jogo frenético, um três a dois que deu a classificação ao azarão, conheci um meio-campista eslovaco muito bom de bola: Marek Hamšík. Ele foi o ponto de partida para que eu pudesse conhecer mais sobre futebol. Era um dos meus jogadores favoritos, tanto que virou meu apelido entre os amigos quando mais novo. Ali, entendi que a Copa reserva grandes histórias e que, mais do que torcer para o meu país, não queria perder nenhum jogo.
Salvo ocasiões especiais. Como quando perdi a abertura da última Copa, entre Equador e Catar, porque estava fazendo o Enem. O mais engraçado é que o motivo de estar lá naquela sala de prova era justamente por culpa da Copa, que floresceu em mim uma paixão que não me larga mais. O jornalismo surgiu como a chance de estar ao lado de quem vive o sonho que tive quando moleque. Por isso, sou grato em dizer que sou fã de tantos personagens deste esporte. Como esquecer Heung-min Son, coreano que determinou a queda da Alemanha em 2018, com gol nos acréscimos? Ou Luis Suárez, de vilão a herói para o Uruguai, contra Gana em 2010? Ou o colombiano James Rodríguez, artilheiro no Brasil em 2014, fazendo um dos maiores golaços da história da competição?
Tudo começa com algo. Seja o Flamengo, seja o Brasil — é o que o senso comum nos dá como primeira opção. Depois, você expande o leque. Passa a enxergar o incomum, o diferente. Analisa e tenta prever até o imprevisível. Isso comecei a fazer quando tinha dez anos, sem saber o que escolheria lá na frente. Hoje, escrevo esta crônica para me reconectar com o que me fez, lá atrás, sentar nessa cadeira e desabafar. Vou para minha primeira Copa do Mundo na cobertura como jornalista em formação — e, quando chegar a hora, não vai ter como não lembrar de tudo o que teve que acontecer para isso se tornar possível.