A Copa do Mundo que eu vi

Na Copa dos Protagonistas, o coletivo é que prevalece

Por Renan Bastos

Sempre achei curioso como a Copa do Mundo consegue reorganizar o tempo. Durante um mês, mais precisamente 39 dias em 2026, a rotina deixa de ser guiada pelo calendário e passa a ser medida pelos jogos. Pelo menos, é assim que passo a funcionar. Os horários perdem a lógica de sempre, as conversas ganham um único assunto e o futebol assume uma dimensão que dificilmente se repete em qualquer outro evento. Talvez seja por isso que eu nunca tenha enxergado uma Copa apenas como uma competição. É um turbilhão de sentimentos para quem carrega o futebol nas veias – e também para quem ama descobrir capitais e bandeiras. Para mim, o Mundial de seleções sempre foi um encontro raro entre histórias e memórias que atravessam gerações – atravessam tanto que meu pai vive me contando sobre como a seleção brasileira dava medo antigamente. E isso machuca, sim. Parece que a nossa geração nunca vai ver o Brasil campeão de novo. Basta um país europeu no nosso caminho no mata-mata que o final é o mesmo. As cinco estrelas não jogam sozinhas, infelizmente. O sonho do hexa, mais uma vez, adiado. Em um dos piores ciclos de preparação da história, não parece ser uma grande surpresa. Mas, no fundo, sempre existe um pingo de esperança. Depois da virada contra o Japão, nos 16 avos, ninguém tirava o troféu da gente. Pois é. Tiraram. Fica para 2030.

Ainda assim, quando olho para trás, percebo que o grande legado desta Copa não foi a eliminação do Brasil – e seria injusto e egoísta se dissesse o contrário. Foi a maneira como uma seleção provou que, no futebol, as melhores ideias ainda conseguem vencer os maiores nomes.

Algumas Copas do Mundo ficam marcadas por um jogador. Outras, por um lance. A de 2026, para mim, ficará marcada por uma ideia, uma filosofia. Esperei o torneio acabar para poder escrever este texto. Mas, antes do fim, todo o roteiro espanhol já estava escrito.

Foi a Copa dos protagonistas. Mbappé chegou como um dos principais nomes do futebol mundial e confirmou a presença muito bem. Foi o artilheiro, com 10 gols e 4 assistências. Assustador o que fez o “tartaruga-ninja”. Só não assustou mesmo quando enfrentou a atual bicampeã Espanha, que anulou uma das “Franças” mais letais da história. 

Messi escreveu mais um capítulo emocionante da própria história. Vimos um “senhor” de 39 anos, carregado de vontade, físico e genialidade, levar a seleção apaixonada da Argentina à mais uma final de Copa do Mundo. E adivinha quem foi capaz de pará-lo? A atual campeã. Ou seja, vimos os dois melhores jogadores da competição completamente encurralados pela defesa quase impenetrável da Espanha: digo “quase” porque levou apenas um gol, contra a Bélgica, nas quartas de final. Mesmo assim, terminou como a melhor defesa da história entre todos os campeões mundiais.

Outros craques apareceram bastante. Haaland confirmou sua força, e para nossa tristeza, marcou dois contra a seleção brasileira. Fez a seleção norueguesa, que não jogava uma Copa há 28 anos, sonhar jogo após jogo. Kane, Bellingham, Dembélé, Vinicius Júnior e tantos outros chamaram a atenção a cada rodada. Era impossível olhar para a trajetória do torneio e não imaginar que um deles decidiria. Tudo parecia muito previsível, não é mesmo?

Mas o futebol, de vez em quando, gosta de contrariar as expectativas.

No fim, quem levantou a taça foi uma Espanha que não dependia de um protagonista. Oyarzabal terminou como artilheiro da equipe. Rodri foi eleito o melhor jogador da Copa. Ferran Torres marcou o gol do título. Lamine Yamal encantou em vários momentos. Nenhum deles, porém, carregou a seleção nas costas. Quem venceu foi o coletivo. E, talvez, essa tenha sido a maior lição do Mundial.

Também foi uma Copa das surpresas. O Paraguai eliminou a Alemanha. A Noruega derrubou o Brasil. A Suíça tirou a Colômbia. A Bélgica atropelou os Estados Unidos quando muitos apostavam na seleção anfitriã. Presenciamos a agonia inexplicável de ver a Argentina sobrevivendo em jogos improváveis. A cada fase, o roteiro mudava. E era justamente isso que tornava tudo mais interessante. Enquanto isso, a Espanha chegava sorrateiramente.

Há quem diga que o futebol espanhol é burocrático. Eu vejo de outra forma. A melhor maneira de impedir que o adversário faça um gol é simples: não deixar a bola chegar até ele. E é isso que a Espanha faz há muito anos. O molho de 2010 ainda acompanha a seleção em 2026. Os caras fizeram por merecer. Terminaram a Copa com apenas um gol sofrido. Não ficaram atrás do placar em nenhum momento do torneio. Assumiram a liderança do ranking da FIFA. Alcançaram a maior sequência invicta da história das seleções, com 38 partidas sem perder. Tornaram-se bicampeões do mundo. Mais do que números, deixaram uma identidade. Será que tudo foi sorte? Ou um trabalho espetacular ao longo dos últimos tempos? Uma geração campeã olímpica, campeã da Europa… e agora campeã do planeta. O careca Luis de la Fuente sabe das coisas.

Foi curioso perceber que, enquanto o mundo esperava um herói, a Espanha preferiu continuar trocando passes.

Quando escolhi a Espanha para acompanhar e escrever as matérias durante a disciplina de Jornalismo Esportivo, fiz meu bolão. Coloquei Espanha e Portugal na final. Apostei no título espanhol. Errei o adversário. A Argentina apareceu no caminho. Mas o campeão foi exatamente quem eu imaginava. Nem por isso a conquista perdeu o encanto. Ao longo das semanas, escrever sobre essa seleção espanhola foi mais do que acompanhar resultados. Foi entender um jeito de pensar o futebol. Cada matéria mostrava uma equipe que valorizava a posse de bola, controlava o ritmo dos jogos e quase nunca permitia que os adversários se sentissem confortáveis. Na final, a Argentina passou noventa minutos sem finalizar uma única vez. Não foi acaso. Foi consequência. Sempre gostei da maneira como os espanhóis entendem o jogo. 

Também tive o prazer de participar das transmissões da Rádio Facom e ver de perto – ou de longe, já que a Copa aconteceu a milhares de quilômetros – a magia de um torneio que é tão amado e emocionante. Agora, no campo profissional. Pesquisei tudo sobre a Bósnia para o jogo contra o Canadá. Narrei o primeiro gol da RD Congo na história das Copas contra Portugal. Faltou o Cristiano marcar, mas está tudo bem. Gritei três gols do Dembélé em 32 minutos contra a Noruega. Fui repórter da França e vi o poder dessa seleção contra a “coitada” Suécia. E, nas quartas e na semi, pude contar como vinha a Espanha para os duelos contra Bélgica e França, respectivamente, com Merino, Oyarzabal e Pedro Porro decidindo. Foi uma experiência sensacional presenciar esses momentos no estúdio ao lado de pessoas especiais.

No fim das contas, a Copa do Mundo de 2026 que eu vi não foi apenas a dos craques. Foi a da força das ideias. A que mostrou que talento individual continua importante, mas que nenhuma estrela brilha tanto quanto um time inteiro na mesma direção. E há um detalhe que torna essa história ainda mais especial para mim. A primeira Copa da qual tenho lembranças é a de 2010, vencida justamente pela Espanha. Dezesseis anos depois, acompanhei de perto, escrevi sobre cada passo e vi a mesma seleção conquistar outro título mundial. A Copa que abriu minhas memórias de torcedor e a que marca minha formação como jornalista tiveram o mesmo campeão.