A COPA DO MUNDO QUE EU VI

A maior Copa de todos os tempos

Por Kamila Magalhães

39 dias. Se pararmos para pensar, um mês e nove dias nem é tanta coisa. No mundo frenético em que vivemos, isso passa em um piscar de olhos, e nem sequer percebemos ou nos importamos. Mas, quando pensamos em 39 dias de Copa do Mundo, é agoniante imaginar a rapidez com que o campeonato passou e que talvez nem tenhamos aproveitado tanto assim.

Por que um mês e nove dias comuns em nossas vidas não significam nada, enquanto um mês e nove dias do maior campeonato de futebol do mundo significam tudo? A resposta, com certeza, está dentro de cada um, mas se eu pudesse criar uma resposta universal para essa pergunta, ela seria: por causa do sentimento.

É quase impossível que alguém não tenha sentido absolutamente nada nesta Copa do Mundo. Seja felicidade, raiva, revolta, tristeza ou até mesmo indiferença, algo tocou cada coração neste ano. Digo isso porque, mesmo que o sentimento despertado não tenha sido necessariamente pelo futebol, os diversos acontecimentos políticos, as superações e as histórias contadas nesta Copa marcaram a todos de alguma maneira.

Para mim, essa Copa teve um gostinho amargo de frustração. Como para todo brasileiro, a esperança do hexa ainda estava viva. Não pela convocação, nem pelo desempenho nas Eliminatórias e nos amistosos, mas porque a seleção pentacampeã do mundo carrega, inegavelmente, a mística da Copa do Mundo.

Assim como no mundo espiritual, no futebol também é preciso correr atrás para receber sua bênção. A passividade da seleção brasileira, dentro e fora de campo, adiou mais uma vez o sonho da sexta estrela. Alguns acreditam ser apenas o início do ciclo e, por isso, a equipe ainda está em adaptação. Eu acredito que seja o reflexo de uma geração individualista, em que a aparência e o dinheiro têm mais valor do que a coletividade de um povo mobilizado para torcer e vibrar pela sua seleção.

Como se não bastasse ver o Brasil cair nas oitavas de final por uma postura apática dos jogadores, ainda tive que assistir Portugal desperdiçar a última Copa do maior jogador da história por um comportamento semelhante. O jogador que ultrapassou as barreiras físicas, humanas e do tempo, disputando uma Copa do Mundo no mais alto nível aos 41 anos, despede-se do maior torneio do futebol da maneira mais injusta que poderia acontecer: sem conquistar o mundo uma única vez.

Seria igualmente injusto resumir a carreira e a atuação do Robozão pela seleção portuguesa a isso. Existe Portugal antes de Cristiano Ronaldo e existe Portugal depois de Cristiano Ronaldo, e eles são completamente diferentes. Talvez por isso ficamos tão decepcionados e indignados. Como pode alguém doar tudo de si pelo seu país e por seus companheiros, enquanto eles retribuem com atuações marcadas pela indiferença dentro de campo?

Pode ser que eu também esteja sendo injusta ao afirmar que o elenco de Portugal não correu por Cristiano. Acho que essa palavra, injustiça, marcou severamente a Copa de 2026. Ela esteve presente quando a seleção do Irã só pôde viajar na véspera de suas partidas por conta das restrições dos Estados Unidos. Esteve presente quando o árbitro somali Omar Abdulkadir foi impedido de entrar no país e, por isso, não atuou na competição. E permaneceu quando o atacante iraquiano Aymen Hussein foi interrogado por sete horas na chegada da seleção do Iraque a Chicago.

Por outro lado, a esperança não perdeu espaço na edição deste ano. O atacante bósnio Edin Džeko definiu isso lindamente em sua carta aberta para as crianças da Bósnia-Herzegovina, ao narrar toda a sua infância em meio à guerra sem deixar que a fé em um mundo melhor morresse. Raúl Jiménez demonstrou, dentro de campo, o poder da esperança. O atacante mexicano marcou seu primeiro gol em Copas aos 35 anos, seis anos após sofrer a fratura no crânio que quase o tirou dos gramados. E Cabo Verde provou, em sua primeira participação em uma Copa do Mundo, que nada é impossível ao empatar com a poderosa Espanha e eliminar o Uruguai, chegando à fase de mata-mata.

Foram 48 seleções e três cidades-sede. Quarenta e oito histórias a serem contadas coletivamente e inúmeras outras a serem narradas individualmente. A última Copa para alguns e a primeira para outros. A Copa do Mundo de 2026 que eu vi foi muito além do futebol; foi uma demonstração quase perfeita de que a coletividade torna o mundo um lugar muito melhor e mais empático.