A Copa do Mundo que eu vi

A Copa do Mundo de 2026 que eu vi foi enorme. Enorme nos estádios, nas transmissões, nos números, nas distâncias e nas promessas. Era vendida como a maior Copa da história, espalhada por três países e capaz de abraçar o mundo inteiro. Mas, quanto mais grandiosa ela parecia, mais ficava evidente uma contradição: a Copa era do mundo, mas não parecia ser para todo mundo.

Nos Estados Unidos, principalmente, o futebol virou espetáculo de vitrine. Estádios cheios, imagens bonitas, arenas modernas, celebridades nas arquibancadas e uma organização pensada para impressionar. Só que, por trás dessa imagem perfeita, havia também uma Copa difícil de alcançar. Ingressos caros, deslocamentos longos, custos absurdos e um país onde entrar nem sempre é simples. Para muitos torcedores, acompanhar a seleção de perto deixou de ser um sonho popular e virou quase um privilégio.

A Copa que eu vi, então, foi também uma Copa de ausências. Ausência de quem não conseguiu pagar. De quem não conseguiu visto. De quem ficou preso na burocracia, no medo da fronteira, no preço da passagem ou na distância entre uma cidade-sede e outra. O futebol gosta de se apresentar como linguagem universal, mas, em 2026, ficou claro que nem todo mundo tem o mesmo direito de falar essa língua de dentro do estádio.

E, no meio disso tudo, também tinha o Brasil. Porque, para nós, Copa do Mundo nunca é só mais um campeonato. O Brasil entra em campo carregando uma história que pesa na camisa, no hino e na expectativa de quem cresceu ouvindo que o país do futebol sempre encontra um jeito. Mas a Copa de 2026 também mostrou um Brasil cheio de dúvidas, tentando reencontrar uma identidade que parece escapar a cada ciclo. A derrota não doeu apenas pelo placar ou pela eliminação. Doeu porque expôs uma seleção que já não assusta como antes e uma torcida que ainda ama, mas já aprendeu a desconfiar.

Ver o Brasil cair foi encarar uma sensação estranha: a de que a camisa amarela ainda é gigante, mas já não resolve sozinha. O peso da história continua ali, mas o futebol não vive só de memória. A cada eliminação, fica a pergunta sobre o que ainda somos dentro desse jogo. Somos o país que ensinou o mundo a jogar bonito ou o país que vive tentando recuperar uma grandeza que parece cada vez mais distante? Talvez as duas coisas ao mesmo tempo.

Ainda assim, no meio dessa Copa cheia de contradições, Lionel Messi continuou sendo uma espécie de exceção poética. Aos 39 anos, ele já não precisava provar mais nada. Já tinha vencido, já tinha sido cobrado, idolatrado, questionado e consagrado. Mesmo assim, sua grandeza parecia aumentar justamente porque ele seguia ali, atravessando o tempo como se cada jogo fosse mais uma página de uma história que ninguém quer fechar.

Talvez por isso a presença dele tenha contrastado tanto com o ambiente ao redor. Enquanto a Copa parecia cada vez mais comercial, mais cara e mais distante, Messi lembrava que o futebol ainda podia ser sentimento. Não um sentimento fabricado para propaganda, mas aquele que nasce quando um jogador toca na bola e, por alguns segundos, o jogo parece obedecer a outra lógica. A lógica do encanto.

A Copa do Mundo de 2026 que eu vi foi essa mistura estranha: grandiosa e desigual, brilhante e excludente, moderna e fria. Uma Copa que mostrou o tamanho que o futebol alcançou, mas também o quanto ele pode se afastar das pessoas quando se transforma apenas em produto. Ao mesmo tempo, foi uma Copa que ainda encontrou espaço para o imprevisível, para a emoção, para a dor brasileira e para a permanência de um gênio.

No fim, talvez essa tenha sido a imagem mais forte: de um lado, uma Copa que tentou ser maior do que todas; do outro, Messi mostrando que grandeza não está só no tamanho do evento, mas naquilo que resiste ao tempo. O Brasil, mais uma vez, ficou pelo caminho e deixou saudade do que poderia ter sido. A Copa de 2026 que eu vi não foi para todos. Mas, enquanto a bola rolou, ainda foi possível lembrar por que tanta gente insiste em amar esse jogo, mesmo quando ele machuca.