A COPA DO MUNDO QUE EU VI
Falavam que quarenta e oito seleções seriam demais. Que a Copa do Mundo de 2026, espalhada por três países, Canadá, Estados Unidos e México, perderia aquela intimidade sagrada dos torneios de outrora. Bobagem. O futebol, quando quer, não se deixa afetar por questões como essas.
A Copa que eu vi começou sob a sombra de um gigantismo intimidador, mas se revelou, no fim das contas, uma coleção de pequenas, lindas e devastadoras crônicas humanas.
Uma das devastadoras certamente ocorreu em uma tarde de domingo, em que os homens do norte remaram sobre a seleção canarinho.
Para nós, brasileiros, a Copa de 2026 terá sempre o sabor amargo de um entardecer em Nova Jersey.
No dia 5 de julho, o MetLife Stadium assemelhava-se a um estádio sul-americano, pintado majoritariamente de amarelo e pulsando ao som de sambas aqui e “olês” acolá, com alguns gritos isolados de “Rruu” e “Norge” ao fundo (remar e Noruega, respectivamente, em norueguês).
Mas o futebol guarda um sadismo próprio. Diante de nós estava a Noruega. Não era apenas um jogo de oitavas de final; era o choque entre o nosso futebol e o pragmatismo gélido do norte europeu, mais especificamente da única seleção que já jogou contra o Brasil e cometeu a façanha de nunca perder contra nós.
Quando o apito final soou decretando o 2 a 1 para os noruegueses, o silêncio que se abateu sobre o estádio foi mais frio do que qualquer inverno escandinavo. Ali, sentimos a dor de mais um ciclo rumo ao hexa que terminava do mesmo jeito que havia começado: de forma desastrosa. Enquanto Haaland e seus companheiros celebravam a audácia de quem não teme camisas pesadas e estava jogando com a leveza de quem sabia que não era a favorita no confronto. Descobrimos, da pior forma, que o gigantismo desta Copa também servia para abrigar surpresas gigantescas.
Mas a beleza da Copa do Mundo é que ela não nos deixa tempo para o luto. O carrossel continua girando. E o que vimos nas quartas e semifinais foi a mais pura essência do drama do futebol
Enquanto a Espanha despachava a poderosa e favorita França com a leveza de quem faz arte no campo e sabe muito bem de suas valências e potenciais, a outra semifinal, em Atlanta, foi um teste para qualquer coração.
Inglaterra e Argentina reviveram um dos clássicos mais viscerais do planeta. Quando Anthony Gordon abriu o placar para os ingleses aos 10 minutos do segundo tempo, o fantasma da eliminação pairou sobre a Albiceleste pela quarta vez nessa fase de mata-mata. Mas a Argentina nesta década aprendeu a sofrer com um sorriso nos dentes.
Faltando cinco minutos para o fim, Enzo Fernández buscou o empate em um chute que pareceu carregar a alma de Buenos Aires. E quando a prorrogação parecia inevitável, Lautaro Martínez – aquele mesmo,o homem que passou em branco no título em 2022 e é reserva nessa copa – decretou a virada por 2 a 1. Uma explosão de júbilo argentino que ecoou desde a Geórgia até a Terra do Fogo.
Agora, nos resta o ato final. De 104 partidas, chegamos finalmente às últimas duas. Inglaterra e França disputam o terceiro lugar em Miami, no dia 18 de julho e no dia seguinte, o mesmo MetLife Stadium que testemunhou a nossa queda receberá Espanha e Argentina para decidir quem reinará sobre o planeta pelos próximos quatro anos.
Será o duelo entre a juventude espanhola, que trata a bola com carinho quase poético, e a combatividade característica de uma Argentina que se recusa a largar a coroa e a deixar de apoiar o seu rei, Lionel Andrés Messi, que com 39 anos está entregando a sua alma em campo pela sua bandeira.
A Copa do Mundo que eu vi não foi a Copa do hexa, mas foi a Copa que me lembrou por que somos tão absurdamente apaixonados por esse jogo de onze contra onze. A atmosfera do México, as surpresas proporcionadas por Cabo Verde, Egito e tantas outras seleções tidas como “fracas”. É a certeza de que, não importa o tamanho do mapa ou o número de seleções, o futebol sempre nos salvará do tédio e nos entregará a eternidade em noventa minutos. Que venha a final e que seja um espetáculo à altura desse encantador e maravilhoso esporte.