Desde o berço até o caixão

por Renan Bastos


Dizem que todo torcedor escolhe um time. Eu nunca escolhi o Fluminense.

Quando nasci, em 2004, meu pai já me vestia com a camisa tricolor no berço. Antes mesmo de aprender a falar, já carregava no peito o verde, o branco e o grená. A verdade é que não existia outra opção. Não houve um momento exato de decisão, um estalo ou uma influência passageira. Foi natural, como herança, como sobrenome, como algo que simplesmente já fazia parte de mim. Meu avô e minha avó por parte de pai também eram tricolores, mas a paixão mesmo, daquela que transborda, veio do meu pai. Foi através dos olhos dele que aprendi que futebol nunca foi só futebol.

As primeiras lembranças mais vivas vêm de 2010, quando tinha cinco para seis anos. A Copa do Mundo da África do Sul foi a primeira que realmente ficou guardada na memória. O álbum de figurinhas teve papel fundamental nisso. Na minha família, colecionar álbum era tradição. E eu gostava demais. Desde cedo, curtia descobrir novos países e escudos, conhecer as bandeiras, as campanhas nas eliminatórias, os jogadores. Cada figurinha era uma pequena porta para o mundo. Mas 2010 também foi o ano em que o Fluminense se tornou tricampeão brasileiro. E talvez por isso aquele ano tenha ganhado um brilho diferente dentro de mim.

Minha primeira memória concreta com o clube é a imagem do meu irmão preparando um cartaz para levar ao Maracanã em um jogo contra o Internacional. Nele, uma frase simples e eterna: “Time de Guerreiros”. Era uma referência à campanha histórica de 2009, quando o Fluminense saiu de um cenário quase impossível, de 99% de chances de rebaixamento, para uma sobrevivência heroica. Não lembro tanto daquela arrancada porque era muito novo, mas sinto que a mística daquele time chegou até mim. Como se a história já tivesse me escolhido antes mesmo de eu compreendê-la.

Entre 2011 e 2014, tinha um costume que hoje vejo como um detalhe, mas que dizia muito sobre mim. Na escolinha de futsal do meu colégio, quase sempre ia com o uniforme do Fluminense. Não era algo pensado, era automático. Abria o guarda-roupa e pegava a camisa do Flu. Na verdade, o calção e o meião também. Jogava totalmente uniformizado. Era como se eu levasse um pedaço de casa comigo pra quadra. Enquanto todo mundo só queria jogar, eu também queria jogar, mas com aquele escudo no peito. Ali, no meio dos “treininhos”, o Fluminense já fazia parte de quem eu era. Sem nenhum tipo de esforço ou explicação, só fazia sentido.

Até 2012, o Fluminense seguiu forte, vencedor, presente. Tetracampeão do Brasil. Após o título, me lembro de gritar na varanda e estender a bandeira para que as pessoas olhassem o escudo. Tive sorte de presenciar esses momentos. E nessa época aconteceu uma história curiosa: um tio me deu de presente uma camisa do Milan, clube italiano. Era uma camisa interessante, uniforme principal. Nunca usei. As cores eram parecidas demais com as do Flamengo. Acho que ela deve estar guardada, embalada, intacta até hoje aqui em casa. 

Nem só de alegria vive um tricolor. De 2013 a 2019, ser Fluminense foi aprender a conviver com o drama quase toda semana. Foram anos difíceis, de várias eliminações e frustrações. Mas foi justamente esse período que me fez ainda mais Fluminense. Na dificuldade, a ligação com o clube fica mais forte e vira parte de quem a gente é. Mesmo assim, 2016 foi um respiro. A conquista da Primeira Liga, em Juiz de Fora, tem um peso emocional enorme na minha memória, apesar de não ser um título relevante no âmbito nacional. O Mário Helênio estava lotado, a cidade parecia viver o jogo, e até hoje lembro da vibração do estádio e da sensação de estar presenciando um momento especial.

Mas nada, absolutamente nada, se compara ao 4 de novembro de 2023.

O título da Libertadores, visto ao lado do meu pai e do meu irmão, transformou um hábito em eternidade. Porque, no fundo, é isso que o Fluminense também representa para mim: aquele compromisso semanal, quase sagrado, que reúne nós três no mesmo sofá – e às vezes nas arquibancadas – para compartilhar alegrias e angústias. Sempre no mesmo lugar. Sempre com as mesmas superstições. Mas, daquela vez, tratava-se do maior jogo da nossa história. Naquele dia 4, o nosso amor em comum pelo tricolor nos fez torcer como um só corpo, um só coração. Depois de quinze anos, o fantasma finalmente havia sido exorcizado. Não me lembro de 2008, mas consigo imaginar o peso de perder uma final de Libertadores no Maracanã. Os deuses do futebol nos deram mais uma chance. E é impossível não pensar que talvez esse esporte seja justamente isso: um sentimento que passa de pai para filho e encontra, no tempo, a chance de viver novos finais.

Há algo ainda mais bonito nessa recordação: meu irmão gravou o áudio da reação da nossa família nos três últimos jogos da Libertadores 2023: os dois confrontos contra o Internacional na semifinal e o jogo decisivo contra o Boca Juniors. Está tudo salvo. Fiquei sabendo das gravações apenas depois da conquista, o que tornou as reações mais genuínas. Sempre que a saudade bate, ouvir de novo é como voltar para aquele sofá, para aqueles gritos, para aquele abraço dado após Wilmar Roldán, árbitro da partida contra o Boca, encerrar a final no Maracanã. E como choramos e festejamos.

Há trechos especiais no áudio do duelo contra o Internacional, no Beira-Rio. Naquele momento, o Fluminense perdia por 1 a 0 quando soltei, quase como um pressentimento: “se tem um cara que temos que confiar nesse time é o John Kennedy”. Outro momento interessante do áudio foi após o atacante Enner Valencia perder uma chance clara de gol para o Inter. Meu irmão gritou, com extrema convicção, que o Fluminense viraria o jogo. Bom, o resto é história. Está gravado. Me arrepio só de lembrar. 

E o Super Mundial de 2025, mesmo sem o título, também me deixou lembranças muito boas. A campanha até a semifinal foi histórica e reforçou em mim algo que o futebol nos ensina: nem sempre ele entrega taças, mas quase sempre entrega memórias. É por isso que a espera pela Copa do Mundo de 2026 tem um peso especial. Ela me faz voltar ao Renan de 2010, encantado pelo álbum, pelas bandeiras e por tudo o que existia em volta do jogo, mas agora com um sentimento novo: além de viver a emoção como torcedor, existe a vontade de contar cada detalhe e cada história através das transmissões da Copa pela Rádio Facom. No fim, é como se todas as versões de mim se encontrassem no futebol. 

Foi o Fluminense que me ensinou a amar esse esporte, e agora é o jornalismo que me dá a chance de contar ao mundo por que ele significa tanto.