Seleção da África do Sul

Por Eduardo Marques

No extremo sul do continente africano, cortada pelo trópico de capricórnio, vê-se uma nação com cerca de 65 milhões de habitantes marcada por uma riqueza mineral e biodiversidade ímpar, bem como uma pluralidade de idiomas e dialetos marcantes. Para além desses aspectos, a África do Sul teve sua identidade marcada por conflitos raciais estruturados pela colonização, questão essa a qual sempre se viu indissociável do universo futebolístico nesse país, que marcará presença na Copa do Mundo da FIFA de 2026. 

A história do futebol na África do Sul começa após a chegada dos colonos ingleses no território. O esporte, ainda jovem na época, era moda no Império Britânico e sua disseminação no sul africano culminou na realização da primeira competição oficial da África, a qual ocorreu antes mesmo do primeiro estadual do Brasil, o Paulistão de 1902. 

No transcorrer do século XX, a colonização inglesa em solo africano era definida por ideias de supremacia racial legitimadas de forma extremamente violenta. Esse modelo de domínio projetou uma estrutura segregacionista que tomaria corpo no âmbito jurídico na forma de um regime institucionalizado: o Apartheid. Nesse sentido, entre 1949 e 1971, o governo composto apenas por brancos instituiu 148 leis responsáveis pela solidificação do Apartheid, o que avançou as etapas no processo de construção do projeto fascista no país. 

Durante esse período, a exclusão de pessoas pertencentes a etnias não-europeias estendeu-se ao universo esportivo, tendo sido criados campeonatos e clubes oficiais separados por grupos étnicos. No fim da década de 50, a seleção sul-africana composta exclusivamente por brancos foi aceita pela FIFA como seleção, mas após negarem a proposta da instituição de promover a união racial no clube, foram banidos. 

As primeiras ligas estruturam-se da mesma forma que a profissionalização do esporte na África do Sul, ou seja, dividida por grupos étnicos. Nesse caso, a competição mais relevante do período seria aquela fundada por negros. Nos tempos atuais, pode-se observar o reflexo do processo histórico descrito, uma vez que a seleção africana de 2026 é toda composta por jogadores negros, fato cuja causa também está associada ao direcionamento do interesse de atletas brancos para o críquete (principal esporte do país). 

Somente após décadas de barbárie, houve a dissolução de leis segregacionistas e a eleição do aclamado líder político Nelson Mandela, no ano de 1994, próximo ao fim da Guerra Fria. Nessa mesma época, aconteceu a readmissão da seleção do país na FIFA, em 1992, em função do abrandamento das leis violadoras dos direitos humanos. 

Trazendo o foco de volta para a história da seleção sul-africana, vemos em 1994, na primeira tentativa de se classificar para uma Copa, após a retirada do banimento, o fracasso. Nesse ano, ela ficou em segundo lugar no grupo das eliminatórias. Apesar dessa decepção, 2 anos depois eles sediaram a Copa de Nações Africana, vencendo o campeonato. 

Nesse embalo, eles conseguiram se classificar para a Copa de 1998 e disputar o torneio pela primeira vez na sua história. No entanto, os resultados não foram positivos e a seleção não obteve nenhuma vitória (2 empates e 1 derrota) na fase de grupos, sendo, assim, desclassificada. 

Após passarem pelas eliminatórias e se classificarem para a Copa de 2002, que se passou no Japão e Coreia do Sul, obtiveram sua primeira vitória na Copa do Mundo em cima da Eslovênia. Entretanto, seu empate com o Paraguai e sua derrota, de virada, para a Espanha tirou-os da Copa na fase de grupos mais uma vez. 

Em 2004, a Africa do Sul foi escolhida no sorteio da FIFA para sediar a Copa do Mundo de 2010, sendo o primeiro país africano a acolher o torneio. Em função disso, centenas de milhões de dólares foram investidos na construção de estádios e outras estruturas para acomodar os turistas que fizeram a economia se movimentar significativamente. Tal investimento, foi muito criticado na época por parte da população, que temia a inutilização desses estádios no pós-Copa, já que o futebol, no fim das contas, não é tão popular lá. 

Apesar de tudo, o aguardado ano em que a nação sediaria a Copa chegou e, com isso, a vaga exclusiva do país-sede, o que os eximiu da disputa por vagas nas eliminatórias. Nesse período, as expectativas em torno da África do Sul eram bem baixas, posto que sequer conseguiram se classificar para a Copa Africana de Nações daquele ano. Então, ao obter 1 vitória, 1 derrota e 1 empate na Copa do Mundo, a seleção foi eliminada na sua casa, mais uma vez por critérios de desempate. 

Após as frustrações com os múltiplos fracassos, medidas foram adotadas no ano de 2016 com o intuito de alavancar o futebol sul-africano. Nesse sentido, a federação esportiva do país tornou obrigatória em seu campeonato oficial a inclusão de um mínimo de 5 jogadores com menos de 23 anos em todas as partidas, sendo que dois desses atletas deveriam estar em campo durante todo o jogo. Para sacramentar a nova era, outra novidade chegaria à África do Sul, no ano de 2021: a contratação de um novo técnico. 

Recém-contratado como técnico, o belga Hugo Broos construiu uma carreira na área, chegando a vencer três vezes o campeonato da Bélgica com o time Brugge, e ganhando projeção internacional ao conquistar a Copa Africana de Nações de 2017 com Camarões. No entanto, foi à frente da Seleção Sul-Africana de Futebol que sua trajetória recente ganhou destaque, ao assumir o comando e iniciar um processo de renovação com jogadores mais jovens, conseguindo organizar taticamente a equipe e recolocá-la como competitiva no cenário continental, com campanhas consistentes em eliminatórias e, até mesmo, uma terceira colocação na principal Copa do continente africano. 

Nas eliminatórias para a copa de 26, Broos passou por polêmicas na sua classificação. Durante essa etapa classificatória, a seleção conseguiu permanecer na liderança do seu grupo com certa segurança. No entanto, no fim dessa série de jogos, foi descoberto que um dos jogadores sul–africanos foi escalado de forma a violar normas da contenda. Em decorrência disso, 3 pontos foram descontados da seleção e ela se classificou dramaticamente, dependendo da derrota de Benin na última rodada. 

Quanto aos jogadores convocados, vemos uma maioria absoluta de atletas do futebol nacional, sendo todos pertencentes a apenas dois clubes: Mamelodi Sundowns e Orlando Pirates. A título de curiosidade, o primeiro clube citado foi campeão da nação nos últimos 8 campeonatos e participou do recente Mundial de Clubes da FIFA. Agora, sobre os jogadores convocados, podemos citar como destaques Lyle Foster, atacante que atua pelo Burnley na liga inglesa e Relebohile Mofokeng, jogador do ataque do atual campeão da África do Sul. 

Referências: 

https://www.transfermarkt.com.br/broos-hugo/profil/trainer/706 https://www.youtube.com/watch?v=NVH7JewfgJg 

https://vermelho.org.br/2009/02/26/futebol-os-campeonatos-do-a partheid/

https://www.nsctotal.com.br/noticias/africa-do-sul-na-copa-do mundo-2026-veja-convocados-historico-e-datas-dos-jogos