Por Israel Rodrigues

Em 30 de maio de 1962, a Copa do Mundo ficou um pouco mais chilena. Com a participação de 16 seleções divididas em quatro grupos, tivemos uma surpresa entre as não classificadas. A semifinalista de 58, França,ficou de fora do torneio. Por outro lado, o então campeão, Brasil, a União Soviética e a Alemanha Ocidental ainda figuravam como favoritas. Sem Pelé, lesionado desde a segunda rodada, os brasileiros precisaram se reinventar na competição. Já os soviéticos, com o lendário goleiro Lev Yashin e o talentoso capitão Igor Netto se notabilizaram por um futebol seguro e eficiente. Enquanto a tradicional seleção alemã esperava continuar seu bom retrospecto em Copas.

Após uma competição fraca em 1958, a Tchecoslováquia retornou ao páreo com uma equipe conhecida pela disciplina tática. Outra seleção que buscava a redenção era a Hungria, dessa vez liderada pelo talentoso atacante Flórián Albert. A Itália e o Uruguai, diferente de 1958, conseguiram se classificar para o torneio.

Antes do início do evento, algumas polêmicas surgiram na época. A primeira diz respeito à infraestrutura dos estádios e hotéis chilenos. Segundo jornais da época, o país não possuía condições para sediar a Copa, mas na verdade isso tem um motivo sensível. Em 1960 o Chile passou, de maneira devastadora, por um dos piores terremotos da história. Cidades foram dizimadas, 5700 vítimas fatais e cerca de 2 milhões de feridos. O Sismo de Valdívia, como foi chamado, na medição feita pela escala Richter registrou 9,5 de magnitude, fato inédito. Quatro sedes tiveram que sair da organização do torneio mundial. Ainda assim, o chileno Carlos Dittborn, presidente do Comitê Organizador da Copa, defendeu e bancou a ocorrência do campeonato em seu país.

Com o lema “Ya que nadie tenemos, los batemos todo” (“já que nada temos, tudo faremos”), Dittborn trabalhou muito para a construção de Estádios na capital Santiago e nas cidades de Vinã del Mar, Arica e Rancágua. Em decorrência disso, o dirigente teve um colapso cardíaco e faleceu em fevereiro de 1962, sem sequer ter a oportunidade de ver sua nação como país-sede. A fim de homenageá-lo, o estádio da cidade de Arica recebeu o nome de Carlos Dittborn.

A fase de grupos não teve grandes emoções, exceto a partida que colocou italianos e chilenos frente à frente. No pré-jogo o clima já não era dos melhores. Os jornalistas Antonio Ghirelli e Corrado Pizzinelli teceram fortes críticas ao país-sede, algumas insensíveis devido ao contexto. Um deles, Pizzinelli, foi ainda mais “sujo” nos comentários ao dizer que “os chilenos não eram evoluídos, mas atrasados”. Tal situação despertou a ira da população e da seleção chilena que foi para o jogo “com sangue nos olhos”, em um confronto que mais tarde seria eternizado como a “Batalha de Santiago”. 

Em 2 de junho de 1962, no Estádio Nacional, 66 mil pessoas presenciaram uma espécie de “acerto de contas”. Mesmo com a seleção italiana, capitaneada por Cesare Maldini, oferecendo um buquê de flores como uma singela desculpa, a seleção chilena tratou o duelo de modo vingativo. Durante os noventa minutos o que se viu foi uma pancadaria sem precedentes. O árbitro, acuado pelos furiosos chilenos, fingia não perceber às agressões. Seja na briga ou no futebol, o Chile venceu a Itália por 2 x 0 e ainda viu os italianos terem uma de suas piores participações em Copas, com a eliminação na fase de grupos.

A seleção brasileira chegou para a Copa no Chile como a grande sensação e a então campeã mundial. Pela primeira vez, o povo brasileiro teria a oportunidade de assistir lances da competição, graças ao advento da tecnologia do “Videotape”. Sobre o elenco, poucas peças foram mudadas de um torneio para o outro. As principais foram a saída de Mazzola (que resolveu competir pela Itália) e o acréscimo do atacante Amarildo (à época, já ídolo do Botafogo), apelidado por Nelson Rodrigues de “o possesso”.

O Brasil foi sorteado no grupo 3, juntamente com a Tchecoslováquia, o México e a Espanha. Na primeira partida, com gols de Zagallo e Pelé, os brasileiros venceram os mexicanos por 2 x 0. Na segunda rodada contra os tchecoslovacos, a seleção canarinho sofreu um “baque”. Ao chutar a bola com a perna esquerda, o camisa 10 brasileiro teve um estiramento na virilha que o tirou do torneio. Para substituí-lo, entrou o jovem Amarildo, uma escolha que no momento pouco fez para tirar o “0″ do placar, mas que se mostraria fundamental na sequência da competição.

O último confronto da fase de grupos, contra os espanhóis, marcou o começo da parceria entre o “anjo das pernas tortas”, Garrincha e “o possesso”, com dois gols do estreante na vitória por 2 x 1. Ainda sobre esse jogo, alguns relatos contam que Pelé (com roupa e tudo) entrou na “ducha” para abraçar o artilheiro.

Nas quartas de final, o Brasil eliminou a Inglaterra com uma vitória por 3 x 1, mas o feito interessante estava do outro lado da chave. Os donos da casa, de maneira inédita, chegavam a essa fase da Copa. O adversário foi a favorita União Soviética. No estádio homenageado a quem lutou para que o torneio acontecesse, os chilenos honraram o esforço de Dittborn e venceram os soviéticos por 2 x 1. 

Com as semifinais definidas, dessa vez o favoritismo se fez presente em pelo menos uma delas. De um lado, a seleção brasileira venceu a chilena por 4 x 2 com grande atuação de  Vavá e Garrincha. O último ainda foi expulso na partida, mas conseguiu um efeito suspensivo para jogar a final, situação que foi vista como polêmica.  Do outro, surpreendentemente, a Tchecoslováquia venceu a campeã olímpica de 1962, Iugoslávia, por 3 x 1.

No Estádio Nacional do Chile, na capital Santiago, brasileiros e tchecoslovacos se enfrentaram em uma partida que contou com a presença de quase 70 mil pessoas. Dentro de campo, um show da seleção brasileira. Com gols de Amarildo, Zito e Vavá a canarinho venceu por 3 x 1 e se juntou, na época, ao seleto grupo (encabeçado pela Itália e pelo Uruguai) de bi campeões mundiais.

A Copa do Mundo de 1962 contou com algumas curiosidades e particularidades. Pela primeira vez na história, um jogador  (o atacante Vavá) marcou, consecutivamente, em duas finais de Copa. Uma torcedora chilena, de nome Gina de Venegas, descrente na classificação de sua seleção contra a União Soviética, apostou um mergulho na fonte da praça Bulnes, caso os chilenos conseguissem vencer. Não deu outra, Gina teve que mergulhar no local sob uma temperatura de 5ºC.

As informações contidas neste texto foram retiradas de publicações do Globo Esporte (GE), do UOL Esporte, do blog “Calciopédia” e do Jornal “O Globo”.